Carta de Repúdio
Sirvo-me desta para lamentar o que aconteceu na última sexta feira, após o encerramento de um desfile que se realiza há cerca de 4 anos, na sexta e no sábado de Carnaval, ocasião em que Goiânia , cidade sem essa tradição , apresenta nas ruas o que tem de melhor em termos de blocos de percussão, sendo que dois deles formados por crianças e adolescentes de comunidades carentes. Para garantir a segurança de todos, não era permitida a entrada de latinhas, garrafas, nem copos de vidro e as apresentações transcorreram num clima tranquilo, assistidas por famílias, crianças e jovens, não tendo havido qualquer incidente ou excesso, nenhuma desavença entre os presentes. A noite, que tinha tudo para se encerrar com todas as pessoas voltando para casa contentes, transformou-se de uma hora para outra em um filme de terror.
Não se sabe se apenas por despreparo ou por desequilíbrio, o que torna muitos deles inaptos para fazer uso de montaria, cassetete e armas de fogo, o que ocorreu, é que, na pressa de evacuar as pessoas do local onde havia terminado o evento, (em frente ao Mutirama), diversos policiais, com as mangas dobradas para não serem identificados, uns a pé, outros montados em seus possantes cavalos, fizeram uma varredura, ou seja, um verdadeiro arrastão, espalhando por onde passavam, além de susto e medo, spray de pimenta, acompanhado de palavras grosseiras. Mais tarde, na Delegacia, alegaram que o motivo foi um copo de cerveja (!!!!!!) jogado em um deles. Após agredirem dezenas de pessoas, não apenas com o spray, mas também com cassetetes, sem justificativa plausível, levaram cinco jovens para o primeiro DP. Quatro deles, muito conhecidos pela efetiva atuação na área cultural da cidade, participavam do evento, na sexta e no sábado, que era a execução de um projeto aprovado pela Lei de Incentivo à Cultura, da Prefeitura de Goiânia.
A desproporção da violência e a covardia dos policiais gerou revolta nos presentes, que se dirigiram em massa para o referido DP e ali de fora passaram quase toda a madrugada protestando contra a truculência. Enquanto isso, não estando presentes onde deveriam estar, mas na porta do primeiro DP, com várias viaturas estacionadas e luzes piscando, num aparato visual que lembra aqueles ridículos filmes americanos, se ocupando em conter o justo protesto dos jovens, a dois quarteirões da delegacia, próximo ao local em que aconteceu o desfile, os bandidos de verdade se esbaldaram e, conforme informações, puderam impunemente praticar dois esfaqueamentos e uma tentativa de furto de carro. O pesadelo foi interrompido por volta das seis da manhã, tendo sido as vítimas, a essas alturas consideradas réus, liberadas, após serem submetidas a exame de corpo de delito no IML.
O relato que faço tem ligação direta com outros fatos semelhantes, que, não sei por qual motivo, eu e minha família nunca denunciamos. Moramos numa chácara em um bairro mais simples, considerado violento. Todos os meus filhos já foram submetidos com certa freqüência ao famoso “baculejo”, porém de maneira desrespeitosa e sempre acompanhado de gritos, intimidações e ameaças. No carnaval do ano passado, nesse mesmo evento, na Av. Araguaia, minha filha e uma amiga, que estava a trabalho, porque demoraram um pouco a sair, foram intimidadas covardemente por três policiais, que de cima de sua arrogância e de seus belos animais, cercaram-nas andando em círculos, ameaçando-as com os cavalos. Não se esqueçam que elas se encontravam em uma via pública (assim como todos os presentes ao evento de sexta feira), que todo cidadão tem, assegurado pela Constituição, o direito de ir e vir, e que não estamos em guerra, portanto, submetidos a toque de recolher. Mais ou menos na mesma época, meu marido e eu, num sábado à noite, bem vestidos, sentados no antigo Empório Badauy, no nobre Setor Oeste, fomos surpreendidos por quatro policiais, que desceram de uma kombi, e apontando as metralhadoras para ele, ordenavam aos berros que colocasse as mãos na cabeça. Chegamos a olhar para trás e para os lados pensando que se dirigiam a outra pessoa. Só se retiraram, alegando tê-lo confundido com um foragido da prisão(!), depois que os enfrentei dizendo ser advogada e que aquilo não era maneira correta de abordagem, nem se se tratasse de um bandido.
O problema é grave. Muitos devem estar acompanhando através dos meios de comunicação, uma série atos abusivos praticados por aqueles que têm a obrigação de proteger, e não de agredir os cidadãos. Sem falar nas execuções, posso citar recentemente, a abordagem grosseira feita à delegada Renata Chein, e , também a violência e o constrangimento por que passou o jornalista Batista Custódio, do Diário da Manhã, o que gerou dezenas de cartas de solidariedade dos diversos segmentos de nossa sociedade.
O que quero acrescentar é que somos, eu, meu marido, e meus cinco filhos e noras, uma família pacífica, ligada a manifestações culturais. Somos produtores e participantes de eventos voltados sobretudo para a música, a literatura e o cinema, dentro de enfoques sócio-ambientais. Em todas as vezes que fomos submetidos às intimidações citadas acima, nossos filhos, talvez por medo, foram os primeiros a nos pedir que não fizéssemos nada. Só que desta vez não dá mais para ficarmos calados. Esse infeliz episódio de sexta feira é o relato de uma mãe, que acompanhou o acontecido e seus posteriores desdobramentos envolvendo um dos seus filhos, que após ser gratuitamente atacado com spray de pimenta, foi agredido por trás. Ao ver o que estava acontecendo, minha nora, demonstrando uma coragem que poucos têm, ao tentar interferir para ajudar o marido que estava sendo asfixiado com uma gravata, foi agredida com cassetete e arrastada por alguns metros pelos policiais, que também lhe atiraram nos olhos spray de pimenta. Com o fôlego curto e a boca sangrando, causada por um soco, meu filho foi atirado num camburão, ilegalmente algemado, e levado para a primeira DP. Dos cinco detidos, três são freqüentadores de minha casa. Apenas não conheço o outro rapaz, chamado Gregório, que, devido a violência da agressão, teve que ser levado a um hospital onde foi diagnosticado traumatismo craniano. Soube depois, que ele é filho do conhecido Tarzan de Castro, ex- deputado, que possui uma biografia de lutas, e foi, na década de sessenta perseguido por integrantes do sanguinário regime militar.
Várias pessoas foram espancadas e empurradas, e pelo menos duas tiveram suas câmeras arrancadas das mãos e destruídas. Das mais de vinte pessoas que se submeteram a exame de corpo de delito para comprovação das agressões sofridas, conheço umas oito, e sei que são pessoas de bem, a maioria possui nível de escolaridade superior, e todos trabalham, estudam e produzem. Três delas são mulheres e estão cheias de escoriações e hematonas. A elas foi sugerido fazer uma denúncia junto à Delegacia da Mulher.
Há quem diga que devo me manter calada sobre esse episódio. Não vejo motivos porque, em primeiro lugar, o que relato já foi noticiado em todos os jornais da cidade, além de testemunhado por quase uma centena de pessoas, dentre elas jornalistas, artistas, políticos e formadores de opinião. Apesar da perda de farto material, tomado pela policia, comenta-se que ainda se salvaram fotos e filmes comprobatórios da violência ocorrida. Depois, os agressores devem ser suficientemente inteligentes para prever que serão os únicos suspeitos, caso qualquer dano venha a ser causado a algum dos vinte e tantos que foram agredidos fisicamente, já que não possuem inimigos, e muitos deles são filhos de pessoas de projeção na cidade. Tenho certeza que o comando superior dessa corporação, ao tomar conhecimento da realidade dos fatos, não permitirá que seus subordinados pratiquem outros atos ilegais. Acredito até que se empenhará em proteger as vítimas, inclusive para melhorar a lastimável imagem que tem sido apresentada perante a opinião pública.
Felizmente a população conta com o apoio de representantes de várias instituições e nunca será demais agradecer a proteção em todos os momentos necessários, do incansável deputado Mauro Rubem, uma das figuras mais atuantes na defesa dos Direitos Humanos, que, ao tomar conhecimento do que ocorria, dirigiu-se para a referida Delegacia e ali passou a noite acompanhando o desenrolar dos procedimentos.
Sei que chegou a hora de fazer o que nunca fiz antes: usar a credibilidade que tenho, adquirida em anos de trabalho sério, primeiro na área do Direito e depois na da cultura, como musicista e escritora, para denunciar e divulgar através desta e dos os meios de comunicação esse terrível acontecimento. Tenho certeza que receberei apoio e solidariedade não apenas dos que me conhecem e acompanham a trajetória de minha família, como dos políticos sérios, das instituições de defesa aos direitos humanos, e também dos que agora estão lendo este depoimento. E pretendo, a partir de agora, participar de algum dos muitos projetos que tentam resgatar a dignidade e o respeito ao cidadão, direito esse constitucionalmente assegurado, mas muitas vezes descumprido, justamente pelos agentes da lei.
Para finalizar, quero dizer da admiração dobrada que sinto neste momento por este filho. Apesar de submetido a humilhações, apesar da agressão sofrida, da noite passada em claro na Delegacia e no IML, e de muitos terem sugerido que como protesto não voltasse ao Carnaval para apresentar os blocos Batuque Revolução e Vida Nova , organizados por ele e pelo grupo que também foi agredido, numa atitude de rara dedicação à causa social que abraçou e em consideração aos membros dos blocos, não apenas fez seu trabalho na noite seguinte, no mesmo local onde foi maltratado, e para poupar a garotada nem contou a eles o que lhe havia acontecido. São atitudes como essa, contrárias às outras, que fazem dele um homem de verdade e de mim, uma mulher orgulhosa do filho que tem.
Quero também enfatizar que é nossa obrigação denunciar abusos e que se fecharmos os olhos ou cruzarmos os braços, as coisas continuarão como estão, com a nossa conivência, e o que aconteceu a meu filho poderá acontecer também ao seu, ou a alguém de sua família. Obrigada pela atenção.
Denise Godoy
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