Texto de Danilo Danilovisk
Em: http://totalmenteseculoxviii.blogspot.com/2010/10/as-cabras-que-enlouqueceram-este-cabra.html
Na noite de treze de maio de dois mil e cinco eu entrei, pela segunda vez em minha adorada vida, no Teatro Goiânia. Era efetivamente a segunda vez que eu ia ao teatro na minha, ainda adorada, vida. Acontecia, então, o Primeiro Festival de Teatro de Goiás. Era o segundo dia de apresentações. Todas, haveria ainda seis outras, eram gratuitas - bons tempos aqueles. Por mais que eu saiba que é verdade - e eu estive lá logo sei que é verdade - não acredito nas minhas lembranças. Havia uma multidão na porta do teatro. E, embora eu seja realmente hiperbólico, era uma multidão de verdade com todas as suas consequências. Quando as portas se abriram a multidão se moveu enlouquecida como se fossemos dar cristãos aos leões. Eu muito espertinho, já naquela longínqua época, postei-me atrás de um casal e me esgueirei até a poltrona D12. Sentei-me feliz. E foram sentando-se outras pessoas. E mais pessoas, e mais, e mais. Até que, pela primeira, porém não pela última vez na minha vida adorada, houve lotação carpete. Não sabe o que é isso, leitor amigo? Lotação carpete é quando tanta gente entra no teatro que alguns têm que sentar-se no chão. Surge logo a pergunta: o que atraiu tanta gente?
Devemos voltar um pouco no tempo. Para ser mais exato devemos voltar a uma noite qualquer no século quatorze. Estamos em plena Idade Média, a peste está assolando nossas pequenas cidades, o temor do demônio nos deixa sempre paralisados, as condições de higiene são precárias e a fome assola a todos. A felicidade não é geral. Um cidadão, que preferiu permanecer anônimo na noite dos séculos, está em sua residência escrevinhando. Às vezes para um pouco, revisa, ri de si para si. Ele é francês, eu não havia me lembrado de dizer. No dia seguinte numa feira qualquer da França medieval há de estrear La Farce de Maistre Pierre Pathelin, ou em francês moderno La Farce de Maître Pierre Pathelin, ou em português mesmo, A Farsa do Mestre Pierre Pathelin. Esta farsa diferentemente de seu desconhecido autor vai se tornar mundialmente conhecida. Será traduzida em várias línguas, terá outros nomes como Farsa do Advogado Pathelin e semelhantes. Mas o que esse sujeitinho francês, sujo e correndo o risco de se tornar foco de contaminação de peste negra tem a ver com a minha segunda ida ao teatro? Avancemos no tempo, de volta para o futuro.
Aqui entramos no reino das suposições. Numa certa noite do ano de dois mil e três, ou talvez dois mil e quatro, reuniram-se os integrantes da Cia Nu Escuro para decidir sua próxima peça. Depois de alguma discussão surgiu uma idéia simples, como todas as ideias geniais. Um deles, não consigo saber qual, disse: "Vamos fazer a melhor peça que já foi apresentada em Goiás". E eles conseguiram.
A primeira peça a que eu assisti foi apresentada por uma companhia do Rio de Janeiro, uma boa peça. A segunda peça a que eu assisti, você deve ter percebido, amável leitor, foi de uma companhia goiana, uma peça genial. Ontem à noite, assisti novamente a O Cabra que matou as Cabras.
De uma maneira genial Helio Fróes dirigiu e adaptou a Farsa do Advogado Pathelin, criando uma peça feita para a rua, mas que cabe em qualquer lugar. Nada foi retirado do texto, mas muito foi acrescentado. Sem nunca violentar o texto. Tudo que se acrescentou serve ao texto original tornando tudo uma festa incrível. O cenário e os figurinos são uma excelente contribuição. Assim como as músicas, a gag circense e os textos de cordel que foram acrescentados. Tudo ajuda a criar o clima perfeito para um texto popular, que sempre chega ao público num impacto incrível. Há, é claro, o clima medieval, em que o texto nada como peixe num rio manso. Absolutamente nada é datado, nada deixa de chegar ao público. Essa foi uma das coisas que mais me chocou naquela noite de dois mil e cinco. Um texto de sete séculos que é vivo, inteligente, ágil, lindo.
Agora eu passo às contribuições definitivas ao maravilhoso que sempre é esse espetáculo: os atores. Em ordem alfabética: Abílio Carrascal, Adriana Brito, Eliana Santos, Izabela Nascente e Lázaro Tuim são, respectivamente, O Pastor, Guilhermina Pathelin, Amadeu Silveira/Juiz, Pedro Pathelin, Guilherme Côvado. Todos excelentes no mais alto nível. Todos têm momentos inimagináveis de comicidade. Não há um único momento de tédio na presença deles. E sempre tudo é feito com uma alegria tão contagiante que seria impossível que isso não se refletisse na platéia. Quando na minha vida eu vou esquecer o coral de cabras, ou Pathelin e Guilherme disputando os "cachos de la cabrè", ou Guilhermina e Amadeu cantando, ou o Pastorzinho contando as histórias da mulher que virou cabra e do rapaz que virou bode? Nunca, absolutamente nunca.
Eu posso afirmar que já assisti a essa peça em todo tipo de lugar: na rua, em teatro pequeno, em teatro grande, em uma espécie de quintal dos Jesuítas. Ao contrário do que eu disse no último texto não foram dez vezes. Infelizmente, foram nove. Eu assitiria à décima, e à vigésima e a todos os ordinais possíveis. Poucas vezes, dessas nove, não houve casa lotada. Na primeiríssima, eles foram aplaudidos em cena sete vezes. Ontem, Hélio Fróes assistiu através da web, pois estava no Rio de Janeiro. No dia vinte e nove de outubro de dois mil e cinco, quando assisti na Praça Cívica, um bêbado ficou no meio da apresentação durante uns dez minutos. Eu poderia fazer um livro de ocorrências inusitadas dessa peça. Gostaria de ressaltar uma única: foi exatamente com essa peça, naquela segunda vez em que estava assistindo teatro, aos dezoito anos de idade, que realmente decidi que um dia, seja quando for, eu estarei em cima do palco para tentar repassar um pouco da divina alegria que numa certa noite de maio me foi dada.
Em: http://totalmenteseculoxviii.blogspot.com/2010/10/as-cabras-que-enlouqueceram-este-cabra.html
Na noite de treze de maio de dois mil e cinco eu entrei, pela segunda vez em minha adorada vida, no Teatro Goiânia. Era efetivamente a segunda vez que eu ia ao teatro na minha, ainda adorada, vida. Acontecia, então, o Primeiro Festival de Teatro de Goiás. Era o segundo dia de apresentações. Todas, haveria ainda seis outras, eram gratuitas - bons tempos aqueles. Por mais que eu saiba que é verdade - e eu estive lá logo sei que é verdade - não acredito nas minhas lembranças. Havia uma multidão na porta do teatro. E, embora eu seja realmente hiperbólico, era uma multidão de verdade com todas as suas consequências. Quando as portas se abriram a multidão se moveu enlouquecida como se fossemos dar cristãos aos leões. Eu muito espertinho, já naquela longínqua época, postei-me atrás de um casal e me esgueirei até a poltrona D12. Sentei-me feliz. E foram sentando-se outras pessoas. E mais pessoas, e mais, e mais. Até que, pela primeira, porém não pela última vez na minha vida adorada, houve lotação carpete. Não sabe o que é isso, leitor amigo? Lotação carpete é quando tanta gente entra no teatro que alguns têm que sentar-se no chão. Surge logo a pergunta: o que atraiu tanta gente?
Devemos voltar um pouco no tempo. Para ser mais exato devemos voltar a uma noite qualquer no século quatorze. Estamos em plena Idade Média, a peste está assolando nossas pequenas cidades, o temor do demônio nos deixa sempre paralisados, as condições de higiene são precárias e a fome assola a todos. A felicidade não é geral. Um cidadão, que preferiu permanecer anônimo na noite dos séculos, está em sua residência escrevinhando. Às vezes para um pouco, revisa, ri de si para si. Ele é francês, eu não havia me lembrado de dizer. No dia seguinte numa feira qualquer da França medieval há de estrear La Farce de Maistre Pierre Pathelin, ou em francês moderno La Farce de Maître Pierre Pathelin, ou em português mesmo, A Farsa do Mestre Pierre Pathelin. Esta farsa diferentemente de seu desconhecido autor vai se tornar mundialmente conhecida. Será traduzida em várias línguas, terá outros nomes como Farsa do Advogado Pathelin e semelhantes. Mas o que esse sujeitinho francês, sujo e correndo o risco de se tornar foco de contaminação de peste negra tem a ver com a minha segunda ida ao teatro? Avancemos no tempo, de volta para o futuro.
Aqui entramos no reino das suposições. Numa certa noite do ano de dois mil e três, ou talvez dois mil e quatro, reuniram-se os integrantes da Cia Nu Escuro para decidir sua próxima peça. Depois de alguma discussão surgiu uma idéia simples, como todas as ideias geniais. Um deles, não consigo saber qual, disse: "Vamos fazer a melhor peça que já foi apresentada em Goiás". E eles conseguiram.
A primeira peça a que eu assisti foi apresentada por uma companhia do Rio de Janeiro, uma boa peça. A segunda peça a que eu assisti, você deve ter percebido, amável leitor, foi de uma companhia goiana, uma peça genial. Ontem à noite, assisti novamente a O Cabra que matou as Cabras.
De uma maneira genial Helio Fróes dirigiu e adaptou a Farsa do Advogado Pathelin, criando uma peça feita para a rua, mas que cabe em qualquer lugar. Nada foi retirado do texto, mas muito foi acrescentado. Sem nunca violentar o texto. Tudo que se acrescentou serve ao texto original tornando tudo uma festa incrível. O cenário e os figurinos são uma excelente contribuição. Assim como as músicas, a gag circense e os textos de cordel que foram acrescentados. Tudo ajuda a criar o clima perfeito para um texto popular, que sempre chega ao público num impacto incrível. Há, é claro, o clima medieval, em que o texto nada como peixe num rio manso. Absolutamente nada é datado, nada deixa de chegar ao público. Essa foi uma das coisas que mais me chocou naquela noite de dois mil e cinco. Um texto de sete séculos que é vivo, inteligente, ágil, lindo.
Agora eu passo às contribuições definitivas ao maravilhoso que sempre é esse espetáculo: os atores. Em ordem alfabética: Abílio Carrascal, Adriana Brito, Eliana Santos, Izabela Nascente e Lázaro Tuim são, respectivamente, O Pastor, Guilhermina Pathelin, Amadeu Silveira/Juiz, Pedro Pathelin, Guilherme Côvado. Todos excelentes no mais alto nível. Todos têm momentos inimagináveis de comicidade. Não há um único momento de tédio na presença deles. E sempre tudo é feito com uma alegria tão contagiante que seria impossível que isso não se refletisse na platéia. Quando na minha vida eu vou esquecer o coral de cabras, ou Pathelin e Guilherme disputando os "cachos de la cabrè", ou Guilhermina e Amadeu cantando, ou o Pastorzinho contando as histórias da mulher que virou cabra e do rapaz que virou bode? Nunca, absolutamente nunca.
Eu posso afirmar que já assisti a essa peça em todo tipo de lugar: na rua, em teatro pequeno, em teatro grande, em uma espécie de quintal dos Jesuítas. Ao contrário do que eu disse no último texto não foram dez vezes. Infelizmente, foram nove. Eu assitiria à décima, e à vigésima e a todos os ordinais possíveis. Poucas vezes, dessas nove, não houve casa lotada. Na primeiríssima, eles foram aplaudidos em cena sete vezes. Ontem, Hélio Fróes assistiu através da web, pois estava no Rio de Janeiro. No dia vinte e nove de outubro de dois mil e cinco, quando assisti na Praça Cívica, um bêbado ficou no meio da apresentação durante uns dez minutos. Eu poderia fazer um livro de ocorrências inusitadas dessa peça. Gostaria de ressaltar uma única: foi exatamente com essa peça, naquela segunda vez em que estava assistindo teatro, aos dezoito anos de idade, que realmente decidi que um dia, seja quando for, eu estarei em cima do palco para tentar repassar um pouco da divina alegria que numa certa noite de maio me foi dada.
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