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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Aspereza lúdica no teatro

Pablo Kossa, jornalista (A Redação - 11/12/2012)

Foto de Layza Vasconcelos


Na semana passada, tive a oportunidade de assistir ao espetáculo Plural da Cia Nu Escuro, durante a 11ª Mostra Nacional de Teatro de Porangatu (TeNpo 2012). Saí da sala teatral do Centro Cultural da cidade do Norte goiano impressionadíssimo. Os caras contaram uma história dura, crua e áspera. Mas de forma lúdica e encantadora. Em certos momentos, flertam com a inocência da infância. Em outros, com o mundo cão dos telejornais da hora do almoço. Na boa, isso é de uma virtude ímpar. Uma trama de temática tão forte dificilmente consegue ser tão palatável. É fato raro. E a trupe conseguiu materializar nesse espetáculo. Palmas para eles.

Com direção de Izabela Nascente, Plural conta a história de uma garota desde sua primeira infância em um ambiente rural, as rusgas familiares, as dúvidas do adolescer sem diálogo e informações, o êxodo para a cidade grande, as situações de exploração a que são submetidas as pessoas que chegam nas metrópoles para trabalhar e os dramas inerentes nessa dura caminhada. Aliás, caminhada que boa parte dos brasileiros, ou alguém muito próximo, se submeteu. Eles tiveram a sensibilidade de narrar uma história que é comum aos corações da maioria do nosso povo.

A sacada do uso dos bonecos contracenando com atores de carne e osso talvez seja a grande diferença do espetáculo. Quando ocorre essa equiparação entre gente e bonecos, uma interação real, prazerosa e estimulante, a história consegue tratar de temas densos com uma suavidade que emociona. Em certos momentos, até diverte. É mais ou menos como aquela injeção que você precisa levar, mas que, ao fim do processo, percebe que não foi tão dolorida assim. Você sai do teatro reflexivo, pensando nas pessoas que você ama e que enfrentaram as mesmas broncas ali narradas. Mas não sai cabisbaixo, não sai pesado, não sai sentindo todo peso do mundo em suas costas. Sai esperançoso.

Se tiver a oportunidade de presenciar o espetáculo Plural, por favor, não perca a chance. Pode levar as crianças. O tema barra pesada é absorvido com tranquilidade. Ajuda até a estimular um debate de assuntos delicados que todos nós pais, mais cedo ou mais tarde, teremos que travar com nossas proles. Com os lindo bonecos da Cia Nu Escuro, quem sabe, essa tarefa inescapável (e sempre adiada) pode ser facilitada. Fica a dica.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

190

Texto de Danilo Danilovitsch, sobre a apresentação da peça Carro Caído, na Casa das Artes, teatro Cici Pinheiro

Quando Averróis estava comentando a Poética de Aristóteles para os árabes ele se embatucou com dois termos por ele completamente desconhecidos já que os objetos aos quais esses termos se relacionavam eram do mesmo e completo modo ignorados dos árabes, quais termos sejam: tragédia e comédia. Abu al-Walid Muhammad Ibn Ahmad Ibn Munhammad Ibn Ruchd expôs os tais termos desconhecidos por dois que ele conhecia com absoluta perfeição: elogio escárnio, em que a tragédia seria o elogio dos homens bons e a comédia o escárnio dos maus.
Elogiar é sempre uma tragédia, pois não se diz nunca a metade da verdade e quando o esforço para alcançar essa parte mínima é perpetrado parecemos estar sempre exagerados. Não há uma medida aurea que nos indique qual a quantidade exata de elogios, nem há régua ou esquadro que os meçam e certifiquem. Portanto, já de principio aviso este texto é cheio de elogios, repleto de loas, de encômios, louvores e afins.
No domingo fui ao Teatro Cici Pinheiro assistir a Carro Caído, da Cia Nu Escuro espetáculo da minha amada companhia que nunca tinha visto. Apesar de terem criado um clima de pânico com avisos de espetáculo infantil encoberto pelos termos “espetáculo para toda a família” não foi exatamente o que ocorreu. Não gosto de rótulos. São invariavelmente redutores e preconceituosos. Se Carro Caído for um espetáculo infantil, eu sou uma criança com problemas de excessiva produção do hormônio do crescimento.
Há muito tempo não via um espetáculo tão divertido e talvez aqui esteja a solução para o problema da denominação de espetáculo infantil: Carro Caído nos faz sentir crianças novamente. Abílio Carrascal, Izabela Nascente, Hélio Fróes e Lázaro Tuim contam a conhecida história do carreiro maldizente que tem que levar um sino bento para uma igreja. No meio da viagem depois de muitas e muitas blasfêmias o demônio vem roubar-lhe a alma. Mas o carreiro tem um amigo fiel que com a ajuda de um anjo vai ao inferno e com ajuda da própria inteligência salva a ambos.
A singeleza do espetáculo é tamanha que eu fico encantado de que não tenhamos saído todos levemente mais simples de lá. Toda a sequencia que se passa no inferno é impagável.
Por ser um espetáculo mais antigo e nunca visto havia em mim a curiosidade de quanto da Nu que eu conheço já existia nos espetáculos anteriores. A resposta é simples: tudo. A mesma graça, o mesmo aproveitamento da comédia, a mesma vontade de agradar sem ser subserviente, a mesma alegria. Não falta nada. E nada me alegra mais do que um excelente espetáculo com uma excelente companhia.
Foi uma delicia. Não vi o tempo passar e duvido que alguém tenha visto. Anjos, diabos, caipiras, sinos, bois, luta entre o bem e o mal, frutas típicas do cerrado, cantoria, diversão e ensinamento para a garotada. Tenha ela um metro e dez ou um metro e noventa.

domingo, 8 de maio de 2011

Teatro em Goiás: vivo, muito vivo! - Jornal da Imprensa - Goiânia - GO

Teatro em Goiás: vivo, muito vivo! - Jornal da Imprensa - Goiânia - GO

Por Carlos Brandão
07/05/2011

As artes cênicas em Goiás vivem seu melhor momento e vão se afirmando em quantidade e qualidade. Mas ainda ressentem a falta de uma crítica especializada na mídia local, que simplesmente ignora a explosão deste fenômeno cultural

Quando em 1988, a Secretaria de Cultura de Goiás bancou a montagem do espetáculo Martim Cererê, texto de Cassiano Ricardo, direção de Marcos Fayad e Hugo Rodas, o slogan da peça era "O Teatro vive em Goiás". Um grupo de atores, capitaneados pelo então jovem diretor Sandro di Lima, distribuiu um manifesto, deixando claro que "O teatro sempre viveu em Goiás". O manifesto lembrava que outros grupos existiam no Estado e fazia questão de lembrar a ação de pioneiros como Otávio Arantes, Cici Pinheiro e João Bênnio.

Após essa ligeira discussão sobre a existência do teatro em Goiás, muita água correu por baixo da ponte. O teatro feito naquela época em Goiás, carente, feito com poucos recursos e muito amadorismo, conheceu no ano 2000, dois cortes profundos e essenciais: o início das atividades da Escola de Artes Cênicas da UFG, e a criação da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. A primeira trouxe no seu curso regular de quatro anos, a obrigatoriedade da leitura, da informação, do conhecimento na formação dos novos atores e diretores; a Lei de Incentivo de Goiânia trouxe os recursos que ajudaram a criar novos grupos e profissionalizar os já existentes.

A Lei deu o reforço financeiro para que as companhias teatrais pudessem realizar suas montagens, remunerando os profissionais envolvidos no trabalho. Com isso, uma nova geração de técnicos pode mostrar serviços. Técnicos de luz e som, cenógrafos, figurinistas, músicos, enfim, toda a equipe necessária para dar qualidade ao espetáculo. Atores, diretores e também o pessoal da produção, passaram a receber por seu trabalho. Esse reforço no caixa teve mais uma ajuda com a criação da Lei Goyazes, de incentivo à cultura, pela Agepel, e que teve seu primeiro projeto captado, em 2001. Some-se a isso os editais da Funarte, Petrobras, Banco do Brasil e outras instituições.

Hoje, boa parte das companhias de teatro locais pode circular com suas montagens por outros Estados, além de mostrar seus espetáculos pelo interior goiano e em temporadas nos diversos teatros de Goiânia. Esse é outro item importante que, coincidência ou não, teve seu boom após as Leis e a Escola de Artes Cênicas da UFG: a construção de novos e importantes teatros na cidade.

Casas de espetáculo

Goiânia que tinha dois teatros, Teatro Goiânia e Rio Vermelho, se viu, com várias casas à disposição do público e dos grupos. O Grupo Zabriskie criou seu teatro, que mantém com recursos próprios, há vários anos. Vieram os teatros Marista e da PUC. Depois, o Goiânia Ouro, Madre Esperança Garrido, Teatro de Bolso Cici Pinheiro, Teatro do Sesi, Inacabado, Galpão da UFG e Basileu Toledo França. Desses, o Teatro Goiânia está em reforma desde o início de 2010, e o Inacabado, que foi reinaugurado e não conseguiu ainda abrir suas portas, pela falta de alguns equipamentos.

Alguns grupos têm seus próprios espaços como é o caso da Cia. Carlos Moreira, que mantém um pequeno teatro no Centro de Goiânia, na Rua do Lazer.

Não citei o Martim Cererê, como um teatro formal, por um motivo óbvio: os dois teatros do espaço, Yguá e Pyguá, não devem ser chamados de teatro. Não existe queda, na platéia, o que faz com que todas as poltronas fiquem no mesmo nível. Isso atrapalha o público na hora de assistir o espetáculo. Quem senta da terceira fila para trás, não consegue ver o palco por inteiro. É preciso, sem purismos e sem polêmicas bobas, entender que Yguá e Pyguá são casas de shows, por excelência, e devem servir a um outro público, o de shows musicais que não necessitem tanto de poltronas. O rock e a música eletrônica, que já ocupam o Martim, há anos, são exemplos do modelo de ocupação que o espaço deve privilegiar.

Com incentivos financeiros à produção e casas de espetáculos de qualidade, vários novos grupos ocuparam espaços, nos últimos 11 anos. Às companhias já existentes como Teatro Exercício, Bandeirante, Martim Cererê, Zabriskie, Arte e Fogo, Cia. Carlos Moreira, Terra, Opinião, Espantalho, Transubstanciação, Casa do Teatro, Quilombo dos Palmares, 1.4, Pequi, Júlio Vilela e sua troupe, Rinocerante e Cia. Luiz Pinheiro, se uniram grupos como Nu Escuro, Ritual, Bastet, Oops, Cia in Cena, os dois grupos da PUC, Arte e Fatos e Guará, Bau Produções, Trupicão, Sertão, Novo Ato, Del Arte, Trip-Trapo, além de atores e atrizes que têm seus próprio grupos, caso de Renata Caetano, Newton Murce, Ivan Lima e Mauri de Castro, entre dezenas de outros bons grupos.

Apesar de não estarem no foco dessa reportagem, a dança e o circo também se beneficiaram com as mudanças no mercado. Na dança, a Quasar Cia. de Dança abriu caminhos mais sólidos. Vários bailarinos que passaram pelo grupo ocuparam lugar de destaque na cena. Companhias e bailarinos como Solo, Contemporâneo, Por Quá, Nômades, Behatriz Azevedo, Sacha Witkowski e Kleber Damaso, entre vários outros, mostram serviço e talento. Para dar um exemplo da qualidade da dança feita em Goiás, um dos melhores e mais premiados espetáculos dos últimos anos foi Dúplice, do bailarino Rodrigo Cruz e do ator Rodrigo Cunha. Goiânia tem diversas academias de dança, que sempre formam excelentes profissionais. Na área do circo, destaque para Lahetô, Sapequinha Troupe Show, Troupe Nikolay e Cia. Pés Nus.

Outra novidade na cena foi o surgimento de vários festivais de artes cênicas, em Goiânia. Em 1999, existia apenas o Festival de Teatro de Goiás, bancado pela Federação de Teatro, Feteg. Em menos de cinco anos, a entidade criou outros festivais como Cenas Curtas, Poesia Encenada, Monólogos, Comunitário, Estudantil. Alguns não acontecem mais. Mas todos eles ajudaram a dar uma injeção de ânimo nos grupos. Todos foram criados e aconteciam no Martim Cererê. A prefeitura de Goiânia criou o Festival Internacional de Artes Cênicas Goiânia em Cena, que existe até hoje, felizmente.

Grupos e pessoas físicas ligadas ao teatro ajudaram a criar novos festivais: Festival Nacional de Teatro, Festival de Bonecos e Galhofada, são exemplos de eventos que acontecem anualmente na cidade e que são esperados e privilegiados pela classe teatral e pelo público. O Festival do Corpo Ritual passou a se chamar Encontro de Atores e Criadores e tem trazido bons espetáculos a Goiânia. A própria Agepel criou o Tenpo, festival de teatro que acontece em Porangatu, a cada novembro.

Como se vê nessa amostragem, o teatro anda vivo e muito vivo em Goiás. Teatros não faltam e grupos muito menos. Espetáculos de boa qualidade estão em cartaz nas várias casas. Festivais que intercambiam ideias e montagens. Portanto, não há razão para o público não prestigiar. E não há razão muito menos, para a imprensa local desconhecer solenemente a produção teatral local. Nenhum órgão de imprensa tem um jornalista especializado em artes cênicas. Os jornais fazem suas matérias burocráticas, mas raramente se vê um jornalista cobrindo ou assistindo espetáculos.

Independente desse detalhe, repito, a produção teatral em Goiás está acesa, viva. Não interessa, nessa altura do campeonato, se o teatro vive ou sempre viveu em Goiás. Interessa saber que temos montagens de qualidade, casas de espetáculos para todos os públicos e platéia que acompanha sempre as montagens do grupos locais. Tá que, entre 30% e 50% da que está em cartaz, pode ser melhorado ou até mesmo deletado. Mas isso não é novidade e acontece em todas as áreas artísticas, pelo mundo todo. Mais: a qualidade de um produto é definido pelo público. Isso basta!

Teatros em Goiânia

Teatro Goiânia - Avenida Tocantins esquina com Avenida Anhanguera - Centro (em reforma)
Teatro Rio Vermelho - Centro de Convenções de Goiânia - Rua 4, Centro
Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro - Rua 3, esquina da Rua 9, Centro
Teatro Marista - Rua Hugo Brill, nº 109, Setor Marista (Colégio Marista)
Teatro da PUC - Avenida Fued José Sebba, nº 1184, Jardim Goiás
Teatro Zabriskie - Rua 148, n1º 248, Setor Marista
Teatro Madre Esperança Garrido - Avenida Contorno, n º 63, Centro - (Colégio Santo Agostinho)
Teatro Sesi - Avenida joão Leite, 1013, Setor Santa Genoveva, ao lado do Clube Antônio Ferreira Pacheco
Teatro Galpão da UFG - Praça Universitária - Setor Universitário
Teatro Escola Basileu Toledo França - Avenida Universitária, nº 1175, Setor Universitário
Teatro de Bolso Cici Pinheiro - Avenida Anhanguera esquina com Rua R-1, Setor Oeste
Teatros Yguá, Pyguá e Ytakuá - Centro Cultural Martim Cererê - Rua 94, Setor Sul
Teatro Carlos Moreira - Rua do Lazer - Centro
Teatro Inacabado Otavinho Arantes - Avenida Anhanguera, nº 7030, esquina com Avenida P-2, Setor dos Funcionários (em reforma)

Em cartaz

Espetáculos que podem ser vistos atualmente nas várias salas existentes em Goiânia.

Amor I Love You e Chiquinha, a fofoqueira - Grupo Zabriskie


Travessia III e I Believe - Teatro Ritual

Olho, Conta um conto que te encanto e Macário - Cia. Oops!


A história é uma istória, Bola de Berlim e Eu, Tu e Ele - Grupo Bastet

O Alienista, Envelopes, Carro Caído e O cabra que matou as cabras - Cia de Teatro Nu Escuro

A mais forte - Trama Teatro

O pedido de Casamento, Os três porquinhos, Shrek e Esses gregos das Arábias - Teatro Bandeirante

Puro Brasileiro e Voar - Cia. Martim Cererê

Fragmentos Quintanando e O Contador de histórias do Cerrado - Grupo Arte e Fogo

Édipo - Cia. Benedita de Teatro

Balanço - Grupo Independente de Teatro

Fanfarrões, a peça e De mala e cuia no trem do riso - Grupo ArttPalco

Dúplice - Rodrigo Cruz e Rodrigo Cunha

O boneco de cor - Cia de Teatro do Maleiro

Lendas indígenas e afro-brasileiras - Vagner Rosafa e André Campelo

Boi e Pluft, o fantasminha - Grupo Sertão

Cronicas de Motel, Diário de um Louco, O Príncipe Feliz - Cia. Novo Ato

Velório a Brasileira e Do arco da véia - Cia. Carlos Moreira

A Peleja da Menina que Caiu em Conversa de Passarinho - Grupo Passarinhos do Cerrado

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Revista Moringa

Está no ar o Vol. 2, No. 1 (jan-jun/2011) da revista MORINGA - Artes do Espetáculo. Além de artigos, a edição traz um dossiê sobre cena e tecnologia e também a tradução de um capítulo de livro - inédito em português - de Richard Schechner, estudioso da performance.
A versão impressa está encaminhada e deve sair muito em breve. O link para a revista eletrônica:

http://periodicos.ufpb.br/ojs2/index.php/moringa/index

A revista contêm um artigo de Alexandre Mate, que fala de vários grupos em atividade no Brasil, entre eles a Nu Escuro:

BREVES APONTAMENTOS SOBRE ALGUNS GRUPOS TEATRAIS EM ATIVIDADE NO BRASIL CONTEMPORÂNEO - de Alexandre Mate

Boa leitura!

sábado, 16 de outubro de 2010

As cabras que enlouqueceram este cabra

Texto de Danilo Danilovisk
Em: http://totalmenteseculoxviii.blogspot.com/2010/10/as-cabras-que-enlouqueceram-este-cabra.html


Na noite de treze de maio de dois mil e cinco eu entrei, pela segunda vez em minha adorada vida, no Teatro Goiânia. Era efetivamente a segunda vez que eu ia ao teatro na minha, ainda adorada, vida. Acontecia, então, o Primeiro Festival de Teatro de Goiás. Era o segundo dia de apresentações. Todas, haveria ainda seis outras, eram gratuitas - bons tempos aqueles. Por mais que eu saiba que é verdade - e eu estive lá logo sei que é verdade - não acredito nas minhas lembranças. Havia uma multidão na porta do teatro. E, embora eu seja realmente hiperbólico, era uma multidão de verdade com todas as suas consequências. Quando as portas se abriram a multidão se moveu enlouquecida como se fossemos dar cristãos aos leões. Eu muito espertinho, já naquela longínqua época, postei-me atrás de um casal e me esgueirei até a poltrona D12. Sentei-me feliz. E foram sentando-se outras pessoas. E mais pessoas, e mais, e mais. Até que, pela primeira, porém não pela última vez na minha vida adorada, houve lotação carpete. Não sabe o que é isso, leitor amigo? Lotação carpete é quando tanta gente entra no teatro que alguns têm que sentar-se no chão. Surge logo a pergunta: o que atraiu tanta gente?
Devemos voltar um pouco no tempo. Para ser mais exato devemos voltar a uma noite qualquer no século quatorze. Estamos em plena Idade Média, a peste está assolando nossas pequenas cidades, o temor do demônio nos deixa sempre paralisados, as condições de higiene são precárias e a fome assola a todos. A felicidade não é geral. Um cidadão, que preferiu permanecer anônimo na noite dos séculos, está em sua residência escrevinhando. Às vezes para um pouco, revisa, ri de si para si. Ele é francês, eu não havia me lembrado de dizer. No dia seguinte numa feira qualquer da França medieval há de estrear La Farce de Maistre Pierre Pathelin, ou em francês moderno La Farce de Maître Pierre Pathelin, ou em português mesmo, A Farsa do Mestre Pierre Pathelin. Esta farsa diferentemente de seu desconhecido autor vai se tornar mundialmente conhecida. Será traduzida em várias línguas, terá outros nomes como Farsa do Advogado Pathelin e semelhantes. Mas o que esse sujeitinho francês, sujo e correndo o risco de se tornar foco de contaminação de peste negra tem a ver com a minha segunda ida ao teatro? Avancemos no tempo, de volta para o futuro.
Aqui entramos no reino das suposições. Numa certa noite do ano de dois mil e três, ou talvez dois mil e quatro, reuniram-se os integrantes da Cia Nu Escuro para decidir sua próxima peça. Depois de alguma discussão surgiu uma idéia simples, como todas as ideias geniais. Um deles, não consigo saber qual, disse: "Vamos fazer a melhor peça que já foi apresentada em Goiás". E eles conseguiram.
A primeira peça a que eu assisti foi apresentada por uma companhia do Rio de Janeiro, uma boa peça. A segunda peça a que eu assisti, você deve ter percebido, amável leitor, foi de uma companhia goiana, uma peça genial. Ontem à noite, assisti novamente a O Cabra que matou as Cabras.
De uma maneira genial Helio Fróes dirigiu e adaptou a Farsa do Advogado Pathelin, criando uma peça feita para a rua, mas que cabe em qualquer lugar. Nada foi retirado do texto, mas muito foi acrescentado. Sem nunca violentar o texto. Tudo que se acrescentou serve ao texto original tornando tudo uma festa incrível. O cenário e os figurinos são uma excelente contribuição. Assim como as músicas, a gag circense e os textos de cordel que foram acrescentados. Tudo ajuda a criar o clima perfeito para um texto popular, que sempre chega ao público num impacto incrível. Há, é claro, o clima medieval, em que o texto nada como peixe num rio manso. Absolutamente nada é datado, nada deixa de chegar ao público. Essa foi uma das coisas que mais me chocou naquela noite de dois mil e cinco. Um texto de sete séculos que é vivo, inteligente, ágil, lindo.
Agora eu passo às contribuições definitivas ao maravilhoso que sempre é esse espetáculo: os atores. Em ordem alfabética: Abílio Carrascal, Adriana Brito, Eliana Santos, Izabela Nascente e Lázaro Tuim são, respectivamente, O Pastor, Guilhermina Pathelin, Amadeu Silveira/Juiz, Pedro Pathelin, Guilherme Côvado. Todos excelentes no mais alto nível. Todos têm momentos inimagináveis de comicidade. Não há um único momento de tédio na presença deles. E sempre tudo é feito com uma alegria tão contagiante que seria impossível que isso não se refletisse na platéia. Quando na minha vida eu vou esquecer o coral de cabras, ou Pathelin e Guilherme disputando os "cachos de la cabrè", ou Guilhermina e Amadeu cantando, ou o Pastorzinho contando as histórias da mulher que virou cabra e do rapaz que virou bode? Nunca, absolutamente nunca.
Eu posso afirmar que já assisti a essa peça em todo tipo de lugar: na rua, em teatro pequeno, em teatro grande, em uma espécie de quintal dos Jesuítas. Ao contrário do que eu disse no último texto não foram dez vezes. Infelizmente, foram nove. Eu assitiria à décima, e à vigésima e a todos os ordinais possíveis. Poucas vezes, dessas nove, não houve casa lotada. Na primeiríssima, eles foram aplaudidos em cena sete vezes. Ontem, Hélio Fróes assistiu através da web, pois estava no Rio de Janeiro. No dia vinte e nove de outubro de dois mil e cinco, quando assisti na Praça Cívica, um bêbado ficou no meio da apresentação durante uns dez minutos. Eu poderia fazer um livro de ocorrências inusitadas dessa peça. Gostaria de ressaltar uma única: foi exatamente com essa peça, naquela segunda vez em que estava assistindo teatro, aos dezoito anos de idade, que realmente decidi que um dia, seja quando for, eu estarei em cima do palco para tentar repassar um pouco da divina alegria que numa certa noite de maio me foi dada.

domingo, 10 de outubro de 2010

Oh Deus, benevolente leitor, cortinas!

Texto retirado do blog:
http://totalmenteseculoxviii.blogspot.com/2010/10/oh-deus-benevolente-leitor-cortinas.html#links
Por Danilo Danilovitsch

Eu estava me sentindo órfão. A Cia. Nu Escuro resolveu, e fez muito bem, sair viajando pelo Brasil a fora e há muito tempo não se apresentava aqui. É triste ser deixado para trás como um sapato velho e sem função alguma. A tudo a gente se acostuma. Porém, ontem eles voltaram! Como explicar essa paixão antiga? Explicando, ora.
Há muitos anos - para ser exato no dia treze de maio de dois mil e cinco - eu assisti a uma peça excelente: O Cabra que Matou as Cabras. Foi a segunda peça a que eu assisti na minha vida, a primeira feita por goianos. E não podia ser melhor.
Desde então assisto a tudo que a Cia. Nu Escuro faz. Tudo mesmo, e pelo menos duas vezes. Em dois mil e seis eles estrearam O Alienista - exatidão é tudo: dia dezesseis de setembro de dois mil e seis. Eu estava presente na estréia. Passados quatro anos e vinte e dois dias eles reapresentaram O Alienista. É claro que eu assisti - pela quinta vez.
Até hoje a Cia. Nu Escuro não conseguiu me decepcionar. A começar pelo fato, que me fez quase chorar de alegria, de começarem o espetáculo com cortina fechada. Eu já conhecia o cenário, logo não foi uma surpresa quando lentamente a cortina se abriu, mas ver uma cortina de teatro é algo de mágico. Lá atrás, eu sei que está acontecendo alguma coisa. E de repente, sem ninguém avisar - além das três sonoras e ensurdecedoras batidas de Molière, que nunca são realmente três, mas incontáveis -, abre-se um novo mundo. Isso já valeria a pena.
Mas eles não ficam contentes com isso. Não, querido leitor, eles resolvem encenar um texto da estatura de um Machado de Assis. Eu amo, idolatro, adoro Machado - arranjem outros verbos e eu os usarei. Eles ficaram contentes? Não. Além disso O Alienista é um espetáculo lindíssimo.
Quando a cortina se abre e estão lá Hélio Fróes, Izabela Nascente e Lázaro Tuim com os figurinos perfeitos de Rô Cerqueira e aquela porta verde, único cenário da peça, mas de uma representatividade inigualável, eu sinto vontade de beijar as mãos de todos. E do fundo da platéia do Goiânia Ouro vêm descendo os músicos.
Aqui teremos um espetáculo à parte: as músicas do espetáculo. Eu reivindico, exijo, cobro publicamente dos nu-escurenses um cd com essas músicas. Desde a primeira vez a que assisti, fiquei apaixonado por todas. Mas devo confessar que Vendetta Castellana e A Salvação do Abridor nunca. Vez por outra em casa, na rua, em qualquer lugar eu me pego cantarolando alguma das duas. E o que dizer de Cristiane Perné cantando as músicas todas do espetáculo? Divina.
As músicas são excelentes, o texto é hilário, o espetáculo é lindo, e a direção do próprio Hélio Fróes é simplesmente genial. Não sei em que consistiu exatamente a supervisão de Hugo Rodas cuja voz faz uma ponta como a Loucura, do Erasmo Desidério, também chamado de Roterdã. Eu sei que certos achados são inesquecíveis.
A Nu Escuro está comemorando quatorze anos de existência lançando um projeto chamado De Dentro do Centro. Eles vão viajar, com cinco espetáculos, por algumas capitais, o que significa que eu ficarei órfão de novo. Não por muito tempo. Na próxima quinta-feira eles apresentam no Goiânia Ouro O Cabra às vinte e uma horas. Quem teve a infelicidade de perder O Alienista não deve cometer a imbecilidade de perder O Cabra. Eu estarei lá - completando a minha décima vez.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Um teatro apaixonado

Prestes a completar 15 anos de história, a cia. goiana de teatro Nu Escuro inicia turnê para celebrar uma trajetória de desafios e conquistas. Dramaturgia se mistura à música, ao circo e à dança em universo lúdico e poético.

Foto de Rubens Cerqueira. Espetáculo Preciso Olhar

No palco italiano ou em praça pública, para a Cia. de Teatro Nu Escuro, o espaço não importa. Por onde quer que passe, ela encanta as plateias com a magia e vitalidade de suas performances. Dramaturgia se mistura com música, circo, dança e bonecos, revelando um universo lúdico, envolvente e poético. Com 12 espetáculos no currículo, a companhia, que tem raízes no teatro popular, não abandonou outras formas de encenação e estabeleceu um trabalho contínuo de pesquisa, experimentando novas linguagens e ampliando suas técnicas.
O resultado é uma relação de perfeita sintonia entre espetáculo e público, um diálogo estabelecido por uma arte autêntica e ousada. Este ano, o grupo recebeu o Prêmio Funarte de Teatro Myrian Muniz e inaugura amanhã, no Centro Municipal de Cultura Goiânia Ouro, o projeto De Dentro do Centro, com a apresentação do espetáculo O alienista. Por meio do projeto, a companhia vai percorrer algumas capitais brasileiras e comemorar 14 anos de uma trajetória de desafios e conquistas.

Trajetória
O grupo nasceu do sonho de jovens estudantes da antiga Escola Técnica Federal de Goiás (ETF-GO). Apesar de ser apenas uma atividade extracurricular, o teatro era a verdadeira paixão de Lázaro Tuim e Hélio Fróes. Depois de concluir os cursos, eles desistiram de seguir as carreiras em nome do amor às artes cênicas. Mais tarde, encontraram Abílio Carrascal, Izabela Nascente e Adriana Brito. Surgia um grupo jovem, mas cheio de vontade de concretizar suas aspirações. “Nu Escuro vem da curiosidade de estar sempre à procura de algo, inteiro e desnudo para as novas experiências”, destaca a atriz Izabela Nascente, ao definir a companhia, que passou por dificuldades para se estabelecer. Segundo Izabela, eles enfrentaram as típicas situações da profissão de artista, como falta de dinheiro para viabilizar as produções e descrédito da sociedade. “As dificuldades vieram quando resolvemos nos profissionalizar, mas à medida que assumimos os riscos, as coisas passaram a acontecer. Ao mesmo tempo que mostrávamos o nosso trabalho, as portas se abriam”, lembra a atriz.
Para o ator Lázaro Tuim, além das questões financeiras, outra dificuldade é aquela que proporciona um grande prazer. “Ao mesmo tempo que é difícil, é uma satisfação escolher qual peça montar, de que maneira vamos estabelecer o diálogo com o público, por qual estética ou linguagem optar”, destacou o ator. Ao falar da convivência estabelecida pela proximidade do grupo, ele afirma que essa relação de trabalho fez do Nu Escuro uma grande família. “É uma espécie de casamento, parece uma trupe de circo que pega a estrada um pouco sem rumo. E precisamos entender que essas relações também são constituídas de fases boas ou ruins, no entanto, essas questões são fáceis de superar”, ressalta o ator.
O Nu Escuro é um grupo que superou os desafios com o objetivo de continuar trabalhando e acreditando no sonho de poder fazer um teatro comprometido com a sociedade e com a arte. “Não são apenas aqueles que estão no palco, várias pessoas tornam esse ideal possível. Costureiras, técnicos, bilheteiros, motoristas, amigos e familiares ajudam a realizar os projetos da companhia”, lembra Tuim. Com nostalgia, ele ainda coloca que, depois de tanto tempo, todos os integrantes ainda continuam com o mesmo amor para se dedicar aos palcos. “A sedução do teatro é inesgotável. Quanto mais estudamos e trabalhamos, mais nos apaixonamos pelo teatro, pelas possibilidades de reflexão, desvelamento do homem e da vida que a arte pode suscitar”, afirma.
Os próprios componentes do grupo não visualizavam a dimensão do projeto e a grandiosidade que ele iria adquirir futuramente. “Na realidade, não sabíamos onde queríamos chegar, estávamos dando um tiro no escuro. Esse é um dos motivos do nome da companhia”, destaca Tuim. Para ele, o único desejo naquele momento era viver do teatro, mas existia o medo e a dúvida de qual caminho trilhar. Ele confidencia que, na época, havia uma desconfiança das próprias famílias que sonhavam ver os filhos trabalhando como técnicos e colocando em prática o que aprenderam em seus cursos. Porém, esses receios desapareceram quando o grupo começou a mostrar seriedade e profissionalismo por meio de seus espetáculos que ganhavam projeção.

Processo de criação
Nas 11 obras que o Nu Escuro apresentou, o público teve contato com a versatilidade única da companhia. Vencedores de vários prêmios importantes para as artes cênicas, o grupo leva seus espetáculos a várias partes do País e é recebido de maneira calorosa por uma plateia heterogênea. Em 14 anos de trajetória, eles já foram dirigidos por diretores renomados, como o uruguaio Hugo Rodas e o coreógrafo e diretor da Quasar Cia. de Dança, Henrique Rodovalho. Com uma abordagem cômica, popular e sensível, o grupo se estabeleceu na cena teatral do Brasil.
Ao destacar a importância dos diretores Henrique Rodovalho e Hugo Rodas no processo de criação dos espetáculos O Alienista e Preciso Olhar, a atriz Izabela Nascente ressaltou que a contribuição de ambos trouxe uma nova emoção para o grupo. “O Hugo nos exigiu uma vitalidade em cena , a paixão pelo teatro. Nos ensinou uma força arrebatadora que tentamos conservar em nosso trabalho”, afirma a atriz. Segundo ela, Rodovalho já era uma paixão antiga. “Temos contato com ele desde a gênese do nosso grupo, quando ainda era professor na Escola Técnica e, nessa época, junto com a Quasar, eram referência em nosso trabalho”, ressalta. Ela completa que, no espetáculo Preciso Olhar, só foi possível com a disciplina que Rodovalho tem na produção de pensamento. “O trabalho dele é muito interessante, um geniozinho querido que eu adoro”, brinca Izabela Nascente.

Experiência
“Costumo chamar a Cia. de Teatro Nu Escuro de grupo idoso”, destaca a atriz Adriana Brito, que completa uma década de companhia. Essa definição serve para dizer que os anos de estrada trouxeram uma grande experiência profissional. “Amo trabalhar com todas as pessoas do grupo, temos muita cumplicidade e nos tornamos uma família”, ressalta Adriana. A Cia. de Teatro Nu Escuro é um grupo bastante democrático. Nas vezes em que não convidaram diretores para conceber os espetáculos, algum componente do grupo se dedicou à direção, como aconteceu com a atriz Izabela Nascente. Logo após ter feito uma oficina com o grupo Gira Mundo de Bonecos de Belo Horizonte, ela propôs a montagem de um espetáculo de bonecos, o que foi absorvido como possibilidade de estudo em uma nova linguagem teatral. O projeto De Dentro do Centro é uma circulação do repertório da companhia por Goiás, pelos Estados que fazem divisa e também pelo Distrito Federal, promovendo um intercâmbio com grupos de teatro desses locais. O Nu Escuro vai passar por Palmas (TO), Brasília (DF), Belo Horizonte (MG), Salvador (BA), Cuiabá (MT) e Campo Grande (MS) com os espetáculos O Alienista, Preciso Olhar, O cabra que matou as cabras, Envelopes e Carro caído.


O Alienista, com Cia. de Teatro Nu Escuro
Dia: Amanhã (quinta-feira)
Horário: 21h
Local: Goiânia Ouro - Teatro
Endereço: Rua 3, esquina com Rua 9, Centro
Ingressos: R$ 10 inteira e R$ 5 meia

Capa do DM Revista, Diário da Manhã, 06/10/2010

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

CRÍTICA - Cabras de brio e sem vergonha




O risco e a fortuna de se fazer teatro de rua é a disputa sempre em desvantagem do afeto arredio dos passantes, que não estão lá por acaso e têm mais o que fazer. O homem comum que transita pelas calçadas (quando não faz parte da assustadora estatística da exclusão, para quem a vida na rua tem outro sentido), anda apressado e sem tempo para o desfrute do passeio público. Sua atenção é arrebatada por uma profusão de apelos visuais e sonoros, submetida aos ruídos das máquinas e aos gritos histéricos da mercadoria, que se apresenta sem disfarces. É nesse caótico mundo cada vez mais anestésico e individualista que as trupes de teatro de rua tentam instaurar seu universo de ficção e fantasia. Quando logram seu intento, redimensionam o espaço público, fazendo reverberar ecos de uma socialidade soterrada, mas que ainda reconhece no outro seu semelhante e se felicita por esse reconhecimento.
Disposta e bem armada para essa peleja, a Cia. De Teatro Nu Escuro, de Goiânia, levou à Praça 9 de Julho o espetáculo O Cabra que matou as cabras, uma irradiante celebração da vida e da sabedoria popular, cantada sem pudores e liberta dos falsos ditames que acobertam o caráter vulgar e reacionário do “bomgostismo” politicamente correto. Com base na peça medieval de autor anônimo “A farsa do advogado Pathelin” e em romances de cordel, o espetáculo narra com a voz da galhofa e da picardia a saga de um “amarelo” que, explorado pelo patrão comerciante, mata suas cabras e inventa meios de sobreviver num mundo pautado pela vigarice dos grandes.
Com humor desabusado e se valendo de uma mescla de referências da cultura popular, a trupe conquista a atenção da plateia ao dar ênfase ao entrecho cômico, sem cair na tentação de alongar piadas ou deixar-se levar pelos bons resultados de suas gags. Por serem bons narradores, sabem que estão a serviço da fábula, e a apresentam com desenvoltura e frescor, atentos à exigência de estabelecer por meio dela a comunicação efetiva com o público que, aos poucos, se deixa seduzir pelas artimanhas e disparates.
Através de uma estética da sobreposição, ouso dizer encardida, o espetáculo se incorpora ao espaço urbano sem a ilusão de competir com os brilhos ascéticos da publicidade. Os figurinos lembram farrapos e são deliberadamente “mal acabados”, assim como os mínimos e indispensáveis objetos de cena. A cenografia segue o mesmo conceito, sua rusticidade provém menos da intervenção artesanal do que da qualidade mesma dos materiais utilizados.
Essa desavergonhada “falta de gosto”, diz muito sobre como a trupe entende o que é essencial em seu ofício. E é justamente desse entendimento, dessa picaresca sabedoria nascida da observação atenta de mestres anônimos, que provém o encanto da peça. Sua comunicação é grossa sem ser grosseira; popular sem cair no popularesco.
Chama a atenção o recurso à paródia de canções clichês, cantadas sem muito apuro técnico, e que servem de comentário aos episódios. Não se discute sua eficácia na economia da narrativa. Porém, o espetáculo ganharia se houvesse um aprofundamento da pesquisa musical. Da mesma forma que os esquetes de picadeiro e os cordéis enriquecem a encenação, esta ganharia com a substituição dessas peças musicais de reconhecimento imediato por outras, mais genuínas, sem prejuízo da trama.
Detalhe de menor importância em face da vigorosa encenação que sabe transformar as referências populares em munição para o riso e o encantamento.


Fonte: Márcio Marciano / Foto: Fernando Martinez

http://fentepp.com.br/noticias_ver.asp?codigo=216

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

PALCO GIRATÓRIO: Crítica Teatral "O Cabra que matou as cabras" - Por: Jória Lima


O genuíno teatro de rua em grande estilo. Isso é o que se pode dizer do espetáculo O Cabra que matou as cabras, uma adaptação de Hélio Fróes do texto medieval A Farsa do Advogado Pathelin. Uma montagem da Cia de Teatro Nu Escuro de Goiânia, que reuniu todos os recursos próprios e característicos da linguagem do teatro de rua, do realismo grotesco, de modo eficiente e na justa medida. Um elenco bem preparado com domínio técnico de voz, corpo e uma forte empatia com o público, que se manteve atento e participativo durante toda a apresentação, deleitando-se com as verdades nuas e cruas que saíam poeticamente da boca dos personagens, tão populares quanto os que foram surpreendidos passando pela Praça Jônatas Pedrosa, às quatro da tarde de uma quarta feira.

Cenários e figurinos que remetem ao período retratado, com as próteses de seios, pênis, testículos, barriga, ombros, nádegas, roupas com aspecto surrado como se fossem as companhias itinerantes de comediantes que viajavam de carroça por toda a Europa apresentando seus espetáculos. Em cena, um corpo dessacralizado, incompleto, deformado, em transformação, muito distante do belo padrão apolíneo. Na encenação encontramos as referências claras ao autor russo Mikahil Bakhtin, em sua obra A Cultural Popular no final da Idade Média e no Renascimento: o grotesco com suas metamorfoses entre o humano, o animalesco e o vegetal, em cena os personagens surgem meio cabras, meio humanos; o sentido do rebaixamento que remete ao plano da terra, das necessidades básicas do sexo, da fome, da materialidade primeva, em cena os personagens buscam saciar unicamente sua fome de sexo, dinheiro e comida; a sonorização do espetáculo também é um ponto forte que remete à carnavalização, a festa utópica e popular, onde o antigo e o novo se encontram, onde as coisas estão ao avesso, onde se reverte o poder, a autoridade é desconstituída para que renasça um novo homem, um novo poder e uma nova autoridade.

Em cena, advogados, juiz, comerciante, representações do poder hierarquizado e constituído são satirizados numa anarquia provisória de todas as relações hierárquicas, privilégios, regras e tabus, onde o tapete do poder é subitamente levantado e sob ele se revelam todas as sujeiras. O riso anárquico através do qual todos os males são expurgados para que o homem novo renasça, são e justo. O carnaval é originalmente a festa da renovação que tinha lugar quando um rei era deposto e outro se colocava em seu lugar e a população anunciava a morte de um e o surgimento de outro, assim também com esperanças renovadas saímos do espetáculo de rua genuinamente popular e democrático com vontade de gritar: O Rei está Morto! Viva o Rei!

Jória Lima

*Atriz, diretora, dramaturga, crítica teatral e especialista em Arte Contemporânea.


Fonte:
http://ro.noticianahora.com.br/ler_noticia.php?noticia=94190

terça-feira, 1 de junho de 2010

Lopes, o homem comum e os fios do destino

By Mayara Vila Boa


Foto: Rubens Cerqueira


No dia do aniversário, Lopes tem uma única missão: entregar uma carta à Maria Moreno. Algo comum para um carteiro, se não fosse a estranha sensação de conhecer aquela pessoa e a impossibilidade de achar o endereço. O mais esquisito para Lopes é que aquele bairro é conhecido, aliás, muito conhecido, já que é onde cresceu.
E é no trajeto que o carteiro vai reencontrando as pessoas que fizeram parte de sua infância e adolescência. Ele encontra os amigos do futebol, o ceguinho que dá informações, os velhinhos apaixonado, o casal na gafieira, a mulher apaixonada. Enfim, tudo faz parte de uma viagem ao passado, que talvez ajude a ligar os pontos do presente.
E falando em pontos, eu me lembro de fios. E em dado momento do espetáculo, que é de bonecos, Lopes começa a se questionar. Ele sente que está sendo manipulado. Sente que há algo que o move, como se tivesse preso a fios que o dirigem em suas ações. Irônico não? Como se os manipuladores fossem uma espécie de Deus e apenas eles sabem para onde o carteiro marcha, são os donos da história e Lopes nada pode fazer para escapar de seu destino trágico.
Mas essas coisas de destino a gente guarda para o fim. E seja na vida real, acreditando que somos regidos por uma força superior, na tragédia antiga “pré-vista” pelo oráculo como em Édipo Rei ou na história de Lopes, não há nada que vá mudar aquilo para onde caminhamos. O carteiro Lopes é mais um homem comum, como eu e você, que vive, ama, trabalha. E que marcha resignadamente para o seu único e já traçado fim.
A história do carteiro é contada no espetáculo de bonecos “Envelopes”, da Cia. de Teatro Nu Escuro, com direção de Izabela Nascente. Tem como manipuladores os atores Abílio Carrascal, Adriana Brito, Hélio Fróes, Izabela Nascente, Lázaro Tuim e Marcos Marrom. E vale a pena ver!
Retirado do Blog:
http://dramaticosefeitos.blogspot.com/2010/05/lopes-o-homem-comum-e-os-fios-do.html
Textos e imagens desse blog só podem ser publicados e/ou utilizados em outros locais com autorização da autora.

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Alguns motivos para amar o nu escuro

Por Caetano Mondadori

Pensei em algumas maneiras de começar esse artigo que não tem tanta cara de artigo assim. Já que quero falar da Companhia de teatro Nu Escuro, que tem toda uma importância afetiva na minha vida cultural, poderia começar, sei lá, de maneira meio circense:
- Senhoras e senhores, é com grande alegria que esse artigo tem o prazer de apresentar...
No entanto, achei que seria um pouco megalomaníaco de minha parte e não combinaria com a real intenção do texto.
Depois, pensei em começar com um certo intertexto entre Shakespeare e a Companhia. Algo como, ser ou não ser apaixonado pelo “Nu”, ir ou não ir ao teatro, estar ou não estar no Cine Ouro esse fim de semana. Mas também não conseguia com esse início abarcar tudo o que eu queria dizer.
Foi então que me veio a ideia de começar esse artigo como se fosse uma crônica. Uma boa crônica deve começar com a narração de um fato que servirá para a argumentação do texto. Assim, eu poderia começar falando da primeira vez que eu vi o Nu Escuro e dizer por que eu não consigo deixar de ver a companhia sempre que eles se apresentam, mesmo já tendo visto e revisto a maioria de seus espetáculos. Bem, essa era uma boa ideia até perceber – ou relembrar – a dificuldade que temos em falar das coisas de que gostamos. Existe uma série de grupos e espetáculos que eu poderia ficar horas para descrever todos os meus ódios interiores e insatisfações. Afinal, todo mundo sabe criticar. Mas aí vem o Nu Escuro e cala a boca da gente. A gente só gosta, ama, idolatra, segue e pronto. Eu não consigo explicar e isso talvez mostre minha total incompetência como articulista, pois se eu fosse um bom escritor de artigos, daqueles bons mesmo, eu falava os meus motivos de gostar do Nu Escuro e pronto. Mas eu começo a pensar com meu computador e fico lembrando de todas as vezes que esse povo me fez rir, chorar nem tanto, pensar, refletir, andar atrás deles, me comover.
Bem, indo pela ideia da crônica... eu devo conhecer o Nu Escuro há uns três anos e tive a sorte de vê-los pela primeira vez com O cabra que matou as cabras, a montagem, a meu ver histórica, que eles fizeram de A farsa do advogado Pathelin, um texto francês medieval de autor desconhecido. Tudo no Cabra é um encontro feliz: atuações, direção, cenário, figurinos, intertextos, regionalismos, reconstrução de identidades. Tudo. E, vendo O cabra eu tive que saber de onde saia tudo aquilo. Foi assim que eu fui vendo os outros espetáculos do grupo. Exceto Envelopes, que é a minha dívida pessoal com Isabela Nascente, diretora desse espetáculo em particular.
Nessa caminhada para vê-los a gente tem que encarar o fato de o Nu Escuro sempre propor novos espaços para a interação cênica e lá vai a gente vê-los na rua, na lona de circo no Galhofada, em um pub, na imponência da Praça Cívica ou na modesta praça de um bairro desprovido de muitas coisas. E justamente por vê-los assim tão sem preconceitos, tão abertos ao público, tão inovadores sempre, é que a gente vai atrás mais e mais.
Acredito que principalmente o Nu Escuro é um forma, em mim, de quebrar um preconceito que tem que ser quebrado de uma vez por todas: o preconceito com o que é da gente. Já vi muito amigo se negando a ir ao teatro porque o grupo era local, mas quando se fala do Nu Escuro as pessoas mudam. Caso não conheçam, mudam a partir do momento que assistem. Todo esse respeito que a Companhia conquistou desde 1996 é prova de um teatro que nunca é feito sem seriedade e dedicação, que sempre é pensado em mínimos detalhes para que o público não tenha menos do que uma experiência catártica e sempre veja algo inovador. A comédia arrasadora em O cabra, a leitura de um clássico em O Alienista, a metalinguagem reveladora em Preciso Olhar, a intervenção com bonecos em Envelopes. Se se renovam os textos e as práticas teatrais o público do Nu sempre parece o mesmo: uma montanha de viciados seguidores. Eles conseguem fazer o impossível em Goiânia: os espetáculos deles são assistidos por pessoas do meio teatral. O que é estranho porque o que menos se vê no teatro em Goiânia é gente de teatro.
Mas será que esse público que se repete também é o mesmo? Não. O público nunca é o mesmo em um espetáculo, pois sempre somos outros, acrescidos de outras experiências, de outras expectativas, outros humores. Tampouco são iguais os espetáculos. As pessoas sempre me perguntam por que assistir a um espetáculo mais de uma vez. Ei, a gente assiste filmes mais de uma vez e os filmes são exatamente iguais. Teatro não. No teatro tudo pode acontecer. Algo pode dar errado e é maravilhoso ver atores mostrando suas habilidades e improvisando sem perder o personagem. Como o Nu faz isso bem! Nunca vi uma apresentação desse grupo que não me surpreendesse, que não me revigorasse, me não enchesse de alegria e vida.
Acredito que agora consigo explicar porque você, que está lendo essa coluna-artigo-crônica, deve sair de casa e assistir o espetáculo Envelopes do Nu Escuro essa sexta-feira, sábado e domingo no Centro Cultural Goiânia Ouro às 21 horas (domingo às 20). Não é porque é bom, ou porque tem bonecos, ou porque você vai rir, ou se emocionar. Você tem que ir para ser como nós, aqueles loucos que seguem o Nu Escuro onde quer que ele vá.

Caetano Mondadori é professor de Redação e responsável pela específica Coisas do Gênero

28 de Maio de 2010
Escrito para o editorial do Jornal Diário da Manhã:
http://site.dm.com.br/noticias/opiniao/alguns-motivos-para-amar-o-nu-escuro

sábado, 21 de novembro de 2009

PRECISO OLHAR - Festival Goiânia em Cena


Foto: Layza Vasconcelos
Crítica: Prof. Nilton Rodrigues



PRECISO OLHAR - CIA DE TEATRO NU ESCURO

Tenho podido ver, nesta edição do Goiânia Em Cena, alguns espetáculos e até participar ou assistir a um ou outro seminário ou debate, formal ou informal. E tenho gostado. Me embevece ver o desejo de crescimento, a busca da excelência etc... de superar-se. Isso só pode resultar em coisa muito boa. Bom que a cena anda viva. Parabenizo pela realização do festival, parabenizo os participantes. Como cidadão desta urbe, agradeço a oportunidade de ver tanta diversidade, tanta riqueza nessa curta temporada. Quiçá, além de repetir-se este evento, a cada ano, haja mais intercâmbio entre esses artistas, e o poder público não fuja à tarefa de promover as artes e a cultura, e viabilize a vinda de espetáculos de outros centros até esta praça, bem como a ida de espetáculos daqui para outras plagas. Claro, não somente por ocasião desses eventos, mas, regularmente, em qualquer época.
Desejo começar confessando-me Surpreso: O Nu Escuro quebrou a minha expectativa. Esperava o Nu Escuro da rua. Refletindo sobre isso, folheei o minúsculo programa do espetáculo e me deparei com a frase de Mia Couto, utilizada como epigrafe. De certo modo, as coisas se explicam.
Achei bastante curiosa a proposta da estrutura do espetáculo, que parte de uma reflexão sobre o ser e particulariza, paulatinamente, passando para o animal, o homem, simplesmente, depois visto na relação com o seu espaço, o seu espaço físico, daí ao homem goiano, depois o goianiense, até chegar ao indivíduo. Nessa fase, cada um dos atores assume uma personagem que tem o seu próprio nome – não importa se essa personagem remete ou não à individualidade do próprio ator. Estamos de novo na esfera do SER – seus conflitos, seus anseios, seus medos... Reuniversalizamos o enfoque. Estamos tratando do universal porque nosso assunto agora é o nosso próprio quintal.
E nesse percurso se faz uma crítica leve, embora mordaz, aos hábitos comuns de nossa cultura, inclusive a culinária. E a julgar pelos dados informados, como é calórica nossa dieta. No bojo dessa crítica, o espetáculo encontra espaço para falar sobre teatro. E de modo despojado: com uma frase tomada como bordão: “qual é a última coisa que você faria?”, dita, não dá pra saber se de propósito ou não, de modo distorcido: “qual é a última coisa que você NÃO faria?” – Sim, porque a última coisa que qualquer um não faria, talvez seja aquela que faça em primeiro lugar – há um raro momento em que o teatro atinge uma de suas funções mais caras: fazer-nos rir de nós mesmos.
Foi delicioso ver a cena se repetir segundo diversas concepções cênicas. Que prato cheio para uma plateia formada majoritariamente por gente de teatro. E é impossível deixar de ver aí a crítica aos equívocos de “rotulação”, aos modismos, à apreensão apenas da aparência de concepções que nos encantam, mas que talvez devessem amadurecer mais em nós, para que pudéssemos ousar a realização de espetáculos verdadeiramente vivos. Concepções com que talvez jamais nos identifiquemos, mas que não deixam de ser bem-vindas, porque, antropofagamente, teremos de degluti-las, reelaborá-las conforme nossa cultura e reinventá-las a nosso modo. Mas não é por aí que pretendo seguir. Preciso olhar o espetáculo Preciso Olhar.
Quero ressaltar a simplicidade de tudo. Postura, linguagem, elementos da cena, despojamento... E a auto-crítica que a companhia faz em plena cena. Concordo com algumas. Falta criatividade na utilização de aviõezinhos de plástico, industrializados... A cena ficaria belíssima se invadida por aviõezinhos de papel, desses feitos em dobradura simples com que tanto brincamos na infância. Há outros pormenores.
O Hélio Fróes, mais de uma vez, alertou: “gente, falta dramaturgia!”. É aí que mais concordo. Ainda assim, em parte. Tocantes as cenas em que cada uma das personagens/atores fala de si mesma: seus medos, seus bloqueios, seus limites... Que poesia na cena em que Izabela Nascente fala de sua opção por ser atriz.
Mas, no todo, o espetáculo me pareceu carente de unidade. Faltou amarração, transição sem baques, de uma cena para outra. Vi fragmentado o espetáculo, em “saltos”. Mais ou menos assim, como este comentário. Desculpem. É que eu sou aprendiz de plateia. E me dou por satisfeito se puder contribuir, ainda que minimamente, para que esses meninos (se me permitem chamá-los assim) que vivem tão seriamente a opção que fizeram, prossigam em sua jornada, trazendo sempre espetáculos de altíssimo nível.
E que continuem nos surpreendendo.
Obrigado.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Tudo o que é bom merece ser revisto

Texto de Mayara Vilaboa, extraido do blog "Será só imaginação?":
http://mayaravilaboa.blogspot.com

Foto: Milena Jezenka




Muita gente não entende porque eu assisto o mesmo espetáculo teatral mais de uma vez. Alguns me olham com espanto e perguntam: "Mas você já não assistiu essa peça?". E eu, orgulhosamente respondo que sim e vou além, como quem passa vontade no outro quando está comendo algo muito bom, digo que já vi 2, 3, 6 vezes (depende da peça).
No fim de semana passado eu assisti "Preciso Olhar", da Cia. de Teatro Nu Escuro pela segunda vez. Foi muito bom para poder formular esse post. Um espetáculo é sempre mutante. Por mais que tenha coisas fixas, como o texto, a marcação cênica, o cenário, sempre acontecem coisas novas. Um ator que esquece uma fala, alguém da plateia que fala uma gracinha e até mesmo uma reformulação na peça.
Na apresentação da Nu Escuro fiquei prestando atenção na plateia (adoro fazer isso). Como os públicos são diferentes, as reações diante das cenas também são diferentes. Um exemplo disso foi quando os atores falavam como seria um tapa na cara no teatro infantil, como o Goiânia Ouro estava cheio de atores, o riso foi geral. Algo que não aconteceu na estreia da peça no Teatro Goiânia, em março.
Outro espetáculo que eu posso falar com propriedade é "O Cabra que Matou as Cabras", também da Nu Escuro. Eu o assisti seis vezes. Acho que a melhor apresentação foi a do Teatro Goiânia, quando a Cia. ganhou o prêmio de melhor peça do I Festival de Teatro de Goiânia. No meio de uma cena, o Abílio Carrascal derrubou todas as lâmpadas que ficavam no palco. Foi muito engraçado. A plateia achou um máximo! Todo mundo riu muito como se aquilo fosse parte da peça.
A primeira vez que assisti "Balé de Sangue", com o Anselmo Soares, era a estreia e achei mal. Até escrevi, na época trabalhava no Diário da Manhã, que ele podia trocar algumas cenas de lugar. E quando assisti da segunda vez, realmente as cenas estavam invertidas, o que deu outra cara para o espetáculo, o fez ficar mais denso e gostei muito.
Além das diferenças que os atores e a plateia proporcionam, há também a minha percepção do espetáculo. Como na primeira vez que assisti "Balada de um palhaço", com o Grupo de Teatro Arte e Fatos, fiquei chocada. Gostei muito, mas saí do teatro um tanto baratinada com aquela história do empregado que queria fazer algo diferente do que fazia todos os dias, mas era obrigado pelo patrão a trabalhar maquinalmente. Naquele momento da minha vida me senti como o Bobo Plin, o personagem. Mas na segunda, o sentimento já não era o mesmo. Era só apreciação mesmo, consegui só ver o quanto era bom e belo.
Há também aquelas peças que gostaria de ter assistido muitas e muitas vezes, mas que não pude, como a "Pedra do Reino", do CPT, ou Pinóquio, com a Cia. Giramundo.
É isso... tudo que é bom, merece ser visto mais de uma vez!

terça-feira, 7 de julho de 2009

Nu Escuro - Riso e Diversão Garantidos

Essa é a crítica do espetáculo CARRO CAÍDO que participou da XVIII Mostra de Teatro de Anápolis, escrita por Taw Ranon, no Blog:

Artistas Anapolinos


Fique com o texto:

Nu Escuro - Riso e Diversão Garantidos




Um espetáculo expressivo livre e muito agradável foi o que a Companhia de Teatro Nu Escuro trouxe para o palco da XVIII Mostra de Teatro de Anápolis (de 05 a 12 de julho de 2009).
Formada por atores que não se restringiram apenas a função de representar, o grupo disponibiliza recursos para aqueles que desejam fazer arte como educação para crianças, oferecendo suporte técnico e artístico à escolas e entidades de ensino.

Confecção de bonecos adereços oficinas e montagens de espetáculos são algumas das atividades desenvolvidas por estes artistas que se preocupam na elaboração do projeto desde o inicio com a formação de platéia, até o cuidado com da qualidade dos espetáculos a serem desenvolvidos.

Sediados em Goiânia a Nu Escuro procura manter um repertorio com temas variados que atenda ao público adulto e infantil.

Contagiante a apresentação escolhida para esta Mostra e a reação do público foi imediata. Na linguagem circense presente nesta na exibição, não faltaram diversão e alegria e humor. Descomplicados, os atores usam e abusam de recursos da comunicação para criança fazendo com a platéia que compareceu ao Teatro Municipal embora que na maioria formada por adultos, respondesse não só a atuação do grupo em cena, como também a linguagem utilizada no processo da encenação do espetáculo. Um show de harmonia entre cenário, figurino iluminação e música.

Brilhante participação da Companhia de Teatro Nu Escuro na XVIII Mostra de Teatro de Anápolis.

Taw Ranon

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Angra dos Reis celebra o teatro de rua - O Cabra que Matou as Cabras

Por Adailton Alves – Ator e historiador, convidado do Encontro.


A Cia de Teatro Nu Escuro, de Goiânia, Goiás, levou uma adaptação da farsa medieval do Advogado Pathelin, misturando com o cordel e nominando-o de O cabra que matou as cabras. O grupo bebeu na teoria do realismo grotesco do russo Mikhail Baktin, criando personagens com corpos deformados, em que prevalece o baixo corporal e o duplo sentido. Logo no começo do espetáculo o ator/narrador pede para que acreditem no que irão narrar, senão uma caganeira os acometerá; este recurso de praguejar o público é utilizado por Rabelais em Gargântua e Pantagruel, obra estudada pelo teórico russo, é também uma forma de demonstrar para o público que atores e platéia são iguais, são do mesmo extrato social, são cúmplices, assim a confiança fica estabelecida. Este é ainda um recurso carnavalizante, que põe por terra as boas maneiras, as normas tão presentes na arte burguesa. Ainda dentro do universo carnavalizante, um outro recurso usado pelo grupo ao longo do espetáculo foi a paródia, que apareceram em orações e nas músicas conhecidas que foram reelaboradas. Todos são recursos cômicos largamente usados no seio popular. Aliás, este foi o grupo com as piadas mais picantes, demonstrando que estudaram muito bem o universo em que se embrenharam.



Leia a Crítica completa do Encontro de Teatro de Rua de Angra dos Reis no blog:
teatroderuanobrasil.blogspot.com

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O Cabra que Matou as Cabras na 14ª edição do Encontro Nacional de Teatro de Teatro de Rua de Angra dos Reis


O Cabra em Angra
Foto de Edmar (Irmãos Brodhers)



Diretamente do Estado de Goiás, e passando por outros encontros e festivais, a Cia. de Teatro Nu Escuro escolheu, como texto a conferir um ponto de partida ao espetáculo, o “clássico” A farsa do Mestre Pierre Pathelin, de autor anônimo francês do século XIV/XV.
Decorrente do espetáculo anterior, apresentado relativamente perto da Praça da Matriz, novamente lotada, o espetáculo teve de sofrer um atraso para que o público que assistiu ao espetáculo da Cia. da Lua tivesse tempo de chegar ao espaço em que seria apresentado O Cabra que matou as cabras. Assim, mas não pelo atraso ocorrido para iniciar a apresentação do espetáculo, tendo em vista tratar-se de uma proposta da direção, os atores-personagens passeiam por entre o público. Um desses atores, o tal Cabra, passa com uma garrafa de – imagino – aguardente, talvez para deixar o “miolo mais mole” da platéia. Afinal, ele será julgado, logo mais, em uma cena de julgamento.
Opção do jovem diretor – Hélio Fróes, e o afinadíssimo grupo demonstra domínio da cena, das relações de troca com a plateia –, os atores não usam microfone, e são absolutamente ouvidos pela grande platéia presente ao espetáculo. Trata-se do espetáculo mais escatológico de todos a se apresentar na 14ª edição do Encontro Nacional de Teatro de Teatro de Rua. Desse modo, como já havia mencionado antes o conceito, talvez agora, e brevemente, fosse importante apresentar alguns indicadores conceituais do termo.
Parte significativa dos termos e conceitos utilizados em teatro foi cunhada pelos gregos da Antiguidade clássica e transposta aos que vieram... Hoje, o conceito de escatologia refere-se, sobretudo, a comportamento mal educado, deselegante, não civilizado, decorrente de skatoslogos: referindo-se a doutrina que disserta sobre as fezes. Tendo uma pequena variação gráfica eskhatoslogos, o conceito refere-se a doutrina final do tempo.
O conceito aqui utilizado refere-se, portanto, à primeira conotação. As personagens da montagem do grupo de Goiânia são personagens, fazendo uma alusão ao filme de
Ettore Scola, além de sexualizadas: feias, sujas e malvadas.
Diferentemente de A lenda da Bica da Carioca, neste espetáculo, e não apenas pelo texto original, o ponto de vista da encenação corresponde, como se espera de um espetáculo popular, não é o do comerciante ou do advogado, mas ao do empregado. O ator que apresenta esta personagem (o Cabra) é excelente. Tem domínio de seu fazer e do modo como lida com a platéia. De modo semelhante, precisam, também, ser destacadas as atrizes que fazem o advogado e sua mulher.
Parabéns a todo o grupo e ao seu belo trabalho. Foi uma excelente finalização de segundo dia de jornada.


Por Alexandre Mate
Pesquisador e professor do Instituto de Artes da Unesp de São Paulo. Integrante, com justo júbilo, do Núcleo Nacional de Pesquisadores de Teatro de Rua.



Leia a Crítica completa do Encontro de Teatro de Rua de Angra dos Reis no blog:
teatroderuanobrasil.blogspot.com

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Castiga o falo que o “Nu Escuro”vem aí!

Olá amigos! Esta crítica foi escrita em novembro durante nossa participação da Mostra de Teatro Rua Lino Rojas em São Paulo. E agora ela foi publicada no lançamento da revista do MTR/SP (Movimento de Teatro de Rua de São Paulo) coordenada por Alexandre Mate, no Encontro de Teatro de Rua de Angra dos Reis. Fiquem aí com as palavras de José Cetra Filho:


O Cabra que matou as cabras – Castiga o falo que o “Nu Escuro”vem aí

Ridendo castigat mores.
(expressão atribuída por Paulo Ronai ao poeta)
Jean de Sauteuil



Manhã de sol em São paulo. O bonito e original cenário em tom bege está naturalmente iluminado pelo astro rei. Enquanto isso os jovens astros reis de Goiânia preparam-se para entrar em cena e iluminar ainda mais a bela manhã. Na platéia, habitantes do Vale do Anhangabaú, pessoal ligado ao teatro e uma humilde mãe carregando o seu bebê. Exageros e licenças poéticas à parte foi realmente muito prazeroso assistir ao simpático, mas não isento de problemas, espetáculo.
O texto é baseado na farsa medieval A farsa do advogado Pathelin, de autor desconhecido, aclimatada com inserções de elementos da cultura popular brasileira, principalmente daquela nordestina. O espetáculo foi concebido em processo colaborativo, mas quem assina a dramaturgia é o diretor Hélio Fróes. O texto é irregular, tornando-se às vezes emaranhado e cansativo. Há várias interferências musicais que vão desde os folguedos populares até Tim Maia e Tom Zé (a música deste num momento particularmente engraçado). Esses apartes musicais em algumas situações tornam o espetáculo tímido, fazendo-o perder o ritmo.
O Nu Escuro nasce em 1996, com integrantes do extinto Castigando Falo. A escolha dos nomes denuncia a irreverência e o bom humor do Grupo. Neste espetáculo atuam 4 integrantes do grupo e uma atriz convidada (Eliana Santos), que está menos à vontade e com menor rendimento em cena, apesar de ter feito chorar o grande incentivador de teatro de rua, de Goiânia, Marcos Amaral Lotufo, com o “pum” da personagem apresentado por ela. Os espetáculos são dirigidos por um dos elementos do grupo, neste caso, Hélio Fróes, que não participa como ator. Os atores usam e abusam do grotesco e do escatológico arrancando gragalhadas da platéia e fazendo-a pensar, confirmando a expressão latina em epígrafe: “Rindo corrige-se os costumes”. Todo o elenco tem bom desempenho, mas cumpre destacar o trabalho primoroso de Abilio Carrascal (o tal do “cabra que matou as cabras”, pivô de toda a trama), com uma brejeirice, um a graça e esgares de olhos dignos dos nossos melhores Oscaritos. Esse é um ator talhado para viver nossos heróis/malandros populares como Macunaíma, Pedro Malasartes, Jeca Tatu e Pe
O cenário, construído a partir de cenários e objetos de cena de outros trabalhos, é um espetáculo à parte: o sol que vira lua, os bonecos que surgem em montanhas íngremes ilustrando as histórias da mulher que virou cabra e do homem que virou bode. Melhor de tudo é a esposa do advogado transando com seu amante (um boneco). Deve ser uam grande diversão assistir ao show que acontece atrás do cenário.
O espetáculo, concebido para a rua, deve render muito bem também num palco italiano tradicional.
E por falar em teatro de rua foram hilárias as reações dos atores e da platéia primeiramente com o caminhão do lixo. Interessados no espetáculo que se apresentava, os coletores pararam para assistir ao espetáculo e esqueceram o caminhão ligado... Como o barulho era grande, uma das atrizes, de grande verve histriônica, manda o caminhão tomar naquele lugar com duas letrinhas... Claro, o público vem abaixo. Um pouco depois aproxima-se o helicóptero do Prefeito, em coro e espontaneamente, vociferam todos: Cai fora, Kassab. Quem pode, pode; quem não pode se sacode!


Por José Cetra Filho, pesquisador de teatro.

terça-feira, 7 de abril de 2009

Digital do território do eu

Uma resenha da estréia do novo espetáculo da Cia de Teatro Nu Escuro

Enfim saiu! Duras semanas de ensaios, muita concentração, dedicação, disposição, e, depois de uma boa gozada,o prazer e a emoção. A experiente Cia de Teatro Nu Escuro estreou seu novo espetáculo, “Preciso Olhar” , direção de Henrique Rodovalho, algo muito esperado pela cena local. Como resultado desse anunciado, uma boa apresentação, que não receberia um excelente ainda pelo fato de ser o inicio de um grande feito e com possibilidades de mudanças nas apresentações que ainda estão por vim.

A mistura de olhares foi o grande marco deste espetáculo e o resultado foi a miscelânea de linguagens em torno de um foco: identidade. Rodovalho como convidado especial atendeu as expectativas e soube dirigir tecnicamente e conceitualmente essa grande obra. No entanto, confesso que me deu um friozinho na barriga em ver esse resultado de olhares se edificando. Fui um dos pouco que teve a oportunidade de ver antecipadamente o processo em construção e nos ensaio gerais pude perceber que a obra ainda não tinha terminado. Não conseguia ainda perceber seu estilo – se é que é preciso definir algo; um drama, uma comédia, teatro contemporâneo, dança-teatro, não sei, mas algo que pudesse nos instigar a saber o que poderia sair em um encontro interessante de boas cabeças.

Nas apresentações a surpresa; um espécie de drama- comédia. Não nega-se a dosagem cômica da peça, não sei se intencional, mas a resposta do público foi de muitos risos e boas gargalhadas, um resultado comum para a Cia. De inicio até achei alguns textos longos e dispersos, no entanto, se tornou útil para quebrar essa toada cômica do espetáculo.O Drama, fica por conta dos textos dos “eus”, onde os atores puderam dar o melhor de si, digo literalmente, pois a peça simplesmente dá o olhar intimo de cada ator ou cada personagem nesse caso.

As atuações, um grande desafio; interpretar –se como personagem, uma grande lição para a trupe, pois falar de nos mesmos não é fácil. Nisso todos fizeram bem seus “próprios” papeis. Tuim, com surpreendentes movimentos teve uma atuação destacada; Adriana, em seus dasabafos emotivos sempre bem gestuosos, uma experiente atriz; Hélio Fróes, um cara objetivo e com personalidade; enfim, minha amiga Izabela Nascente, adoravelmente apaixonada, onde pude sentir emoção e verdade, dosada claro de certa tensão e até descontração, mas ao falar de si explorou as coisas que tem paixão, sua família, suas marcas e suas loucuras, foi muito bem obrigado.

Mas a peça não é só um divã oportuno para os atores e o diretor, ela pronuncia sobre nossa cidade, nosso espaço cotidiano, que por acaso é de quase todos que assistiram o espetáculo na estréia. Não foi mais um grupo ou artista falando de Goiânia e Goiás, típico bairrismo muito valorizada pela goianidade de plantão, mas o tom cômico e até irônico nos instigou a ter mais vontade de saber mais sobre nossa identidade e nossas coisas, algo que alguém de fora não se incomodaria pela sutileza que foi dada.

A composição cênica com intervenções áudio-visuais misturada com a definição objetiva da luz, recheada com boa atuação e direção, não resta dúvida que merece atenção da critica teatral, dos fazedores e apreciadores dessa arte. Vale a pena a ver e conhecer esse olhar, nossa digital artística e filosófica...
Intés.

Bruno Garajau Dantas – Historiador, ativista cultural. Um goiano; apreciador da arte teatral

quarta-feira, 1 de abril de 2009

Identidade

Cena de "Preciso Olhar" da Nu Escuro: hora de discutir a relação.
Foto de Rubens Cerqueira


A Cia. de Teatro Nu Escuro surgiu como núcleo de teatro na ex-ETFG na década de 1990. Apesar de Henrique Rodovalho ter sido professor na instituição, o convite para direção de uma montagem foi feito uma década depois.

A mais nova criação é algo inédito para o repertório da companhia. A começar pela direção que é assinada pelo renomado coreógrafo Rodovalho, da Quasar. Além de inexistir no palco personagens e, sim, personalidades.

Ao adentrar a sala de espetáculo, o público reconhece o estilo rodovalhiano de configurar um palco clean. Ele exercita a mescla do audiovisual e artes cênicas, junto com Michael Valim, criando uma instalação em vídeo com imagens de partes dos corpos dos atores, mas não desdobra o suporte e segue exibindo vídeos ao longo do espetáculo.

O público não deve esperar ver dança, dança-teatro ou qualquer outra variação das linguagens. Preciso Olhar é classificável como um bom exemplo de peça de teatro, embora a contemporaneidade mostre que rotular é perigoso, afinal, a proposta da Nu Escuro é apenas bater um papo franco e direto (ou quase uma “lavação de roupa suja”).

Fica ligeiramente incômodo ouvir confissões vindas de Adriana Brito, Hélio Fróes, Izabela Nascente e Lázaro Tuim, nomes próprios no palco e fora dele. Antes de abordar o indivíduo, a Cia. faz um recorte do conceito de ser humano (e goiano) e o localiza geograficamente na cartografia abdominal de Tuim.

Para quem se acostumou a “morrer de rir” nos espetáculos da companhia, vai ter que se contentar a se divertir com doses homeopáticas de bom humor, mas que ainda estão rigorosamente dentro do padrão de qualidade da Nu Escuro. As piadas estão entranhadas na apropriação dos discursos jornalístico, publicitário, teatral etc. dos inúmeros esquetes que os atores encenam para se desafiarem e questionarem a linguagem do teatro. Impagável o Rap da Enfezada. Isso tem que ser publicado no YouTube.

O cenário, embora tenha uma carga de informação necessária à montagem, parece ter tido problema de execução e não compôs harmonicamente o conjunto da obra, inclusive dificultou a visualização das projeções. Letycia Rossi criou um figurino que foi além da identidade e expressou intimidade. Preciso Olhar é espetáculo que a gente “precisa ver” de novo, para olhar mais atentamente o ser humano que se desnuda e mostra tudo aquilo que julga pertencer a sua identidade.

Rafael Ventuna
Especial para o DMRevista
Diario da Manha
01 de abril de 2009

sexta-feira, 27 de março de 2009

Últimas chuvas

Juro que fiquei apreensivo com a estréia de Preciso Olhar. Cheguei no Teatro Goiânia preocupado, como se eu fizesse parte da Cia. Nu Escuro e, por isso, tivesse nas mão uma responsabilidade enorme. Mas apreensão por que? Pela “novidade” que o Hélio Fróes tinha me falado que seria o espetáculo? Pela direção do Henrique Rodovalho?
Sei lá... acho que, na verdade, pelo fato de ter acompanhado mais ou menos de perto a história do grupo e por saber que Preciso Olhar é um espetáculo que viaja por praias nunca dantes viajadas por ele. Acho que foi por isso a apreensão. Mas eu tava sentado numa poltrona do Teatro Goiânia. Do meu lado, um amigo, Estevão, estudante de Psciologia. Ficamos, os dois, ligados no espetáculo, como se aquilo fosse nosso.
O Estevão pensava (e eu também, pra que negar?), que viria um espetáculo daqueles contemporâneos, desses que estão na moda e que eu não entendo quase nada. Falei para os amigos dos grupos Ritual e Oops, que, pelo fato deu não ter feito o teste do pezinho, meu retardamento era evidente e, nesse caso, para entender o contemporâneo, eu precisaria de uma cartilha explicando tudo direitinho.
Nem tanto, né? Nem tanto! Entendi Preciso Olhar, sem necessidade da tal cartilha. Texto massa, direção precisa, atuações na medida, dos quatro atores. Tudo numa sintonia bacana, típica das coisas do Rodovalho, profissional, ensaiado à exaustão. E típico também do Nu Escuro, já que os caras do grupo ralam mesmo e todas suas montagens são, para mim, na minha ótica, de excelente qualidade.
Não preciso dizer mais nada. O Estevão saiu do Teatro entusiasmado: “Véi, amanhã eu volto. Faz tempo não via uma peça tão boa. Pra falar a verdade, nunca vi em Goiás, um espetáculo tão correto”. Não preciso. Falar. Mais nada. Não preciso. Preciso olhar. Ah, lá isso eu preciso muito. Sempre. De preferência esses espetáculos precisos.


Carlos Brandão
Goiânia, março, últimas chuvas